O delegado Braz Morroni, preso por participar de um esquema de tráfico de drogas dentro da Polícia Civil da Paraíba, em conjunto com dois agentes da corporação e integrantes de uma facção criminosa, foram alvos da Operação Perfidus nesta semana.
O Jornal da Paraíba separou as principais informações sobre as investigações que culminaram em mandados de prisão contra o delegado e os agentes da Polícia Civil, além de trazer o posicionamento das defesas dos investigados diante das prisões e acusações.
A reportagem teve acesso a uma decisão da Justiça da Paraíba que autorizou as prisões e os mandados de busca e apreensão para a operação Ao todo, foram nove presos na terça-feira (2).
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A operação
A operação investiga uma organização criminosa suspeita de envolvimento com tráfico de drogas, corrupção e vazamento de informações sigilosas. Segundo a Polícia Civil, o grupo contava com a participação de agentes públicos que utilizavam a estrutura do Estado para favorecer as atividades ilícitas.
Ao todo, foram cumpridos nove mandados de prisão e 24 de busca e apreensão nesta semana. A Justiça também determinou o bloqueio de cerca de R$ 10 milhões nas contas dos investigados. O nome da operação, Perfidus, significa “traição” ou “deslealdade”, em referência à conduta atribuída ao grupo.
Entre os agentes presos está Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como “Bomba” ou “Bombado”. Ele é apontado como o operador central da organização e fazia a ponte entre os policiais e os traficantes.
O segundo agente detido é Eduardo Jorge Ferreira do Egito, conhecido como “Mão Branca”. A investigação aponta que ele participava diretamente dos furtos de drogas, monitorava carregamentos, utilizava rastreadores e escondia os entorpecentes em casa.
Delegado preso e participação no esquema de tráfico de drogas
No documento que autorizou a prisão, o qual o Jornal da Paraíba teve acesso, Braz Morroni é descrito como alguém que teria participação ativa no esquema. Segundo o documento, ele não apenas toleraria as ações dos subordinados da Polícia Civil, mas seria beneficiário direto dos lucros obtidos com a venda de drogas desviadas.
A investigação sustenta que Braz Morroni recebia repasses de dinheiro provenientes das negociações realizadas pelos investigadores, cobrava rapidez na recuperação de valores referentes a drogas vendidas a prazo e utilizava sua posição hierárquica para oferecer proteção institucional ao grupo.
A decisão cita transferências financeiras feitas por Everton Aires, um dos integrantes dessa organização criminosa, para contas ligadas ao delegado, além de conversas interceptadas que indicariam a reserva de uma parcela dos lucros para Braz em operações de tráfico e comércio ilícito de drogas.
Por esses elementos, o magistrado que autorizou a prisão, entendeu haver indícios de participação direta do delegado na estrutura criminosa, determinando sua prisão temporária, afastamento do cargo, bloqueio de bens e suspensão do porte de armas.
Em audiência de custódia realizada pela Justiça após a prisão, foi mantida a prisão temporária de Braz Morroni, na terça-feira (2). Ele foi encaminhado para o Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.
A delegada Emília Ferraz assumiu a titularidade da Delegacia de Crimes contra o Patrimônio (DCCPAT), em João Pessoa, após a prisão do delegado Braz Morroni, que era o titular da delegacia até a prisão. A informação foi confirmada pela Polícia Civil.
Braz Morroni chegou a receber dinheiro do tráfico em delegacia
Também conforme a investigação, o delegado chegou a receber parte de uma cota de venda ilegal de drogas em uma delegacia, em 8 dezembro de 2025, mesmo após os dois agentes da Polícia Civil presos na operação tentarem ficar com parte do dinheiro que iria para ele.
Everton Aires, conforme o documento judicial, “reclamou de cobranças de drogas feitas pelo delegado” e ainda “planejou omitir do chefe uma venda de R$ 18 mil”. O objetivo dos agentes era “reter a cota do delegado e reinvestir no tráfico”.
No entanto, 22 dias depois do recebimento do dinheiro oriundo da venda ilegal das drogas desviadas, a Justiça afirma que “Braz Morroni compareceu pessoalmente à delegacia para arrecadar sua cota em dinheiro”.
O delegado e os agentes da polícia foram afastados das funções e podem ser expulsos da Polícia Civil, de acordo com o secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, à CBN.
O secretário destacou que, além das medidas judiciais já adotadas; como prisões, buscas e apreensões e afastamento das funções; também haverá desdobramentos administrativos.
Delegado pediu prisão domiciliar humanitária
O delegado Braz Morroni pediu, por meio de seus advogados, uma prisão domiciliar humanitária, também conforme documento judicial que o Jornal da Paraíba teve acesso. Esse pedido ocorreu inicialmente na audiência de custódia do delegado e, depois, encaminhado para a 2ª Vara de Garantias de João Pessoa.
O pedido na custódia era baseado em documentos de saúde de 2023 e 2024, com informações de que ele foi diagnosticado com câncer de próstata e submetido a uma cirurgia naquele período.
A juíza que analisou a questão destacou que não foi anexado nenhum laudo ou relatório médico atualizado de 2026 que demonstrasse o reaparecimento da doença, complicações em curso ou um quadro atual de extrema debilidade física.
Michelini de Oliveira Dantas, da 1ª Vara Regional de Garantias de João Pessoa, também ressaltou que o exame traumatológico realizado no dia da audiência atestou a integridade física do custodiado e não registrou qualquer lesão ou queixa de debilidade que viesse a justificar a conversão em domiciliar.
Um outro argumento utilizado pela juíza da audiência para indeferir a conversão da prisão foi de que, com exceção de casos urgentes e específicos, não é possível analisar pedido de prisão domiciliar humanitária pela audiência de custódia e, sim, no âmbito do processo que autorizou a prisão inicial.
No caso, quem deve avaliar o mérito do pedido é a 2ª Vara de Garantias de João Pessoa. Ainda não há prazo para isso.
Outros integrantes do esquema de desvio ilegal de drogas da polícia
Os dois agentes citados, Eduardo Jorge Ferreira e Everton Aires, presos na operação, são considerados duas das principais figuras do esquema criminoso, conforme a investigação.
Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como “Bomba”, seria o elo entre policiais e traficantes, responsável por guardar drogas desviadas, negociar carregamentos de cocaína e skunk, organizar a contabilidade clandestina, orientar integrantes do grupo sobre lavagem de dinheiro e até atuar em esquemas paralelos de importação irregular de mercadorias e comercialização de anabolizantes.
Em audiência de custódia realizada pela Justiça após a prisão, foi mantida a prisão temporária do suspeito. Ele foi encaminhado para o Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.
Já Eduardo Jorge, segundo as investigações, participava diretamente das ações de subtração de drogas, monitorava carregamentos de facções, manipulava rastreadores instalados em veículos e armazenava entorpecentes em sua residência. Ele também foi encaminhado para o presídio no Valentina.
Os outros alvos de mandados de prisão na operação são:
- João Wicttor Alves de Lima;
- Brendo Roberth Fernandes Sobral;
- Paulo Ricardo Barbosa de Souza (“Galinha”);
- José Alexandrino de Lira Júnior (“Júnior Lira”);
- Vanessa Dantas Fernandes;
- Dankennedy Vieira Brito da Silva (“Babau”).
Apenas Dankennedy Vieira não foi encontrado na operação e segue em liberdade. Três outras pessoas, que não foram alvos de mandados de prisão preventiva, foram citadas na decisão da Justiça como pessoas que mantinham relações financeiras suspeitas com integrantes do grupo criminoso. Elas foram citadas como:
- Diego Ernesto Pereira Barros, ex-policial militar;
- Fabiano de Matos Farias, o “Galego”;
- Jobson Rodrigo da Silva.
Os três, conforme a Justiça, foram alvo apenas de mandados de busca e apreensão em endereços citados pela Justiça. Fabiano de Matos, inclusive, está atualmente preso por outros crimes na Penitenciária de Segurança Máxima Criminalista Geraldo Beltrão, em João Pessoa.
O ex-policial militar, apesar de não ter sido alvo de prisão preventiva, acabou sendo preso em flagrante durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão, por obstrução de Justiça e posse ilegal de arma de fogo. Ele passou por audiência de custódia por esses crimes e foi posto em liberdade ainda na terça-feira (2).
O que dizem as defesas dos investigados
Em contato com o Jornal da Paraíba, a defesa do delegado Braz Morroni disse que a decisão da Justiça citada que fala sobre a suposta idade do investigado para a delegacia recolher uma cota da venda de drogas, “se baseou integralmente nos relatórios policiais” e que, estes, “se utilizam de conversas indiretas, entre os agentes de policia e outros invstigados” e que “não há uma única conversa do delegado com qualquer dos envolvidos em todos os relatórios policiais”.
O advogado disse também que “isso revela que a Polícia Civil errou ao não fazer a devida individualização das condutas entre o delegado e os demais investigados”.
Ele afirmou também que o delegado “está sendo preso e injustamente acusado antes mesmo de ser ouvido, exercer o contraditório ou de que a investigação esteja encerrada”.
A defesa também disse que “repudia todas as presunções que se baseiam exclusivamente em conversas de terceiros” e que “não há uma única conversa que mostre o seu envolvimento em qualquer prática ilícita, e ao longo da investigação todos os fatos restarão devidamente esclarecidos e a inocência do delegado com efetivo serviço prestado no combate ao crime será evidenciada”.
Procurada, a defesa dos agentes da polícia disse que os “investigados negam categoricamente a prática dos fatos que lhes são atribuídos e confiam que, ao final da apuração, a verdade será devidamente esclarecida”. Além disso, a defesa também afirma que “as prisões decretadas possuem natureza temporária, instituto jurídico voltado exclusivamente a subsidiar o andamento das investigações, não representando qualquer juízo de culpa”.
Para a Rede Paraíba, a defesa do ex-policial militar disse que a prisão em flagrante foi “excessiva” e “desproporcional”, além de achar que “não havia elementos concretos para a manutenção da prisão ou para a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva”.
Até a última atualização desta reportagem, o Jornal da Paraíba tentou contato, mas não havia localizado as defesas dos outros suspeitos citados para comentar as prisões e investigações.
