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Doce bárbaro, Jesus

“Com amor no coração/Preparamos a invasão/Cheios de felicidade/Entramos na cidade amada”. Era assim que os Doces Bárbaros se apresentavam ao público.

1976. Há 50 anos. Os Doces Bárbaros eram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Como haviam sido Nós, Por Exemplo, na Bahia, antes da fama.

Os Doces Bárbaros celebravam os caminhos construídos em pouco mais de uma década. A celebração, numa turnê nacional, era um canto de amor e liberdade.

Caetano, Gil e Gal estiveram juntos no Tropicalismo. Bethânia correu por fora. Caetano e Gil foram presos e exilados pela ditadura. Gal segurou a barra tropicalista.

Os Doces Bárbaros eram um negócio profundamente politizado. Dava conta do Brasil da ditadura militar, mas não o fazia com o modo explícito da música de protesto.

O “Brasil, ame-o ou deixe-o” – slogan da época de Médici – se transformou em “O seu amor, ame-o e deixe-o/Livre para amar”. Era uma linda canção de Gil.

Um Índio, que antecipava tanta coisa e segue atual, era uma canção inédita que Bethânia cantava. Depois é que ficou conhecida na voz de Caetano, seu autor.

Esotérico também surgiu nos Doces Bárbaros. Dueto de Gal e Bethânia. O sucesso também só viria anos mais tarde na voz de Gil, que escreveu a canção.

“Solto está o pássaro proibido” era o recado de Caetano. E prosseguia: “Perigo, cuidado, sinal nas ruas”. Ou ainda: “Perguntando o que quer dizer meu cantar”.

Do repertório de Milton Nascimento, Fé Cega, Faca Amolada era mais explícita. “Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada”. Versos de Ronaldo Bastos.

Gil juntou o Chuck Berry do nome do pioneiro do rock com o Strawberry Fields Forever dos Beatles, e o resultado foi o rock chamado Chuck Berry Fields Forever.

“Rock é nosso tempo, baby/Rock and roll é isso”. Juntos, Gil e Caetano contavam um pouco da história do rock através, naturalmente, de um rock doce e bárbaro.

Quando era outro rock dos Doces Bárbaros. “Rita Lee/Com todo prazer/Quando a governanta der o bode/Pode crer que eu quero estar com você/Superstar com você”.

A marchinha São João, Xangô Menino evocava as festas juninas e homenageava Luiz Gonzaga, o Rei do Baião: “Olha pro céu, meu amor/Veja como ele está lindo”.

O verso “Doce bárbaro, Jesus” nasceu numa conversa de Caetano Veloso com seu grande e querido amigo Jorge Mautner. Está na letra de Os Mais Doces Bárbaros.

Jesus Cristo enfrentou um império só com a força da sua doçura. Era, portanto, um doce bárbaro. Foi mais ou menos assim o que Mautner disse para Caetano.

Atiraste uma Pedra veio da parceria de Heriverto Martins com David Nasser. “Atiraste uma pedra/No peito de quem/Só te fez tanto bem”. Com quatro belas vozes.

Atiraram muitas pedras nos baianos. Sobretudo em Caetano e Gil. Tanto a direita, que os prendeu, quanto a parte da esquerda que não entendeu o Tropicalismo.

Foto/Reprodu.

Os Doces Bárbaros passaram por várias capitais, gravaram um EP em estúdio, um álbum duplo ao vivo e foram personagens de um documentário exibido nos cinemas.

Os Doces Bárbaros são retrato de um tempo. Faz 50 anos. A invasão que os Doces Bárbaros prepararam “com amor no coração” segue vivíssima em nossa memória.