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O que importa é o craque. O resto é paisagem

A editora Nova Fronteira aproveitou a Copa do Mundo para botar nas livrarias um belo box com três livros. Chama-se As Copas de Nelson Rodrigues.

A autora do projeto é Crica Rodrigues. Crica é filha de Nelson Rodrigues Filho. Neta, portanto, de Nelson Rodrigues. O organizador é Caco Coelho.

Os três livros reúnem 150 crônicas. Dão conta da Seleção Brasileira no período que vai da primeira conquista mundial, em 1958, ao tricampeonato, em 1970.

As crônicas são, naturalmente, sobre a Seleção Brasileira. E se debruçam sobre um período de ouro do nosso futebol, marcado fortemente por um gênio chamado Pelé.

Nelson Rodrigues escrevia sobre futebol. Mas também sobre o Brasil. E sobre nós, os brasileiros. Mais ainda: sobre o ser humano que há no jogador e no torcedor.

Sem querer abusar da palavra gênio, posso dizer que Nelson Rodrigues beirava a genialidade. Na crônica, no folhetim que publicava nos jornais em capítulos diários, no romance e, principalmente, no teatro. O teatro que foi antes e depois dele.

O Brasil, com seus permanentes impasses, me traz sempre a lembrança de Nelson Rodrigues. O futebol brasileiro, derrotado em seis Copas do Mundo, também traz.

Tristemente, não há mais um Nelson Rodrigues para dizer como estão, não apenas a Seleção Brasileira, mas o próprio Brasil e nós, brasileiros e brasileiras.

A festa para a convocação da Seleção de Ancelotti foi um show bizarro montado pela CBF. Senti vergonha do verdeamarelismo que, ali, foi estampado.

Engraçado. Lembrei do “marco extraordinário, Sesquicentenário da Independência”. Na democracia, revi algo de um Brasil remoto, aquele do “ame-o ou deixe-o”.

A convocação de Neymar foi tão ridícula quanto o papel que ele desempenhou nesses dias de Copa do Mundo. O gol e o choro após a derrota foram patéticos.

A Seleção de 1970, que ganhou o tri, nos representava. A Seleção de 1982, que foi eliminada pela Itália, nos representava. A Seleção de 2026 não nos representa.

Nos segundos que antecederam o pênalti, o que vimos não foi o menino Neymar, mas um moleque chamado Neymar. Ou o cafajeste que Juca Kfouri enxerga nele.

O sonho da conquista do hexa acabou neste domingo, cinco de julho de 2026. Nesta segunda-feira, seis de julho de 2026, o Brasil está de volta à sua vida real.

O Brasil das profundas e insolúveis desigualdades. O Brasil dos narcotraficantes, dos milicianos e das bets. O Brasil do parlamento que não nos honra, só envergonha.

Daqui a três meses, tem eleição presidencial. Milhões apostam na manutenção da nossa democracia mínima, enquanto outros milhões desejam acabar com ela.

Foi positivo ver o Brasil ser eliminado pela Noruega. Foi pedagógico. Não tínhamos time para ganhar Copa do Mundo. Pena que seguimos sem o aprendizado das lições.

Numa das crônicas do box de Nelson Rodrigues, ele diz que, num jogo de futebol, o que importa mesmo é o craque. E – sábio – vai em frente: o resto é paisagem.

Na eliminação do Brasil pela Noruega, o nome do craque era o gigante Haaland. Foi ele que fez os dois gols que mandaram o Brasil de volta pra casa. O resto era paisagem.