Pedro Vidal, que é cadeirante, acredita que a participação de profissionais com deficiência em espaços de visibilidade pode incentivar empresas e produtoras a tornarem os ambientes mais acessíveis. Aos 25 anos, o comunicador faz a cobertura do São João de Campina Grande e coleciona entrevistas com grandes nomes da música.
“O meu trabalho pode estar demonstrando a essas empresas que a pauta da acessibilidade é muito importante, pois, como seres humanos, todos nós temos diferenças, e não é diferente para com os profissionais de imprensa. Estar aberto à inclusão é estar aberto a novas possibilidades de colaboração, divulgação e credibilidade no trabalho humano”, afirmou.
LEIA TAMBÉM:
Para outros profissionais com deficiência, Pedro Vidal espera passar uma mensagem de otimismo, mostrando que é possível estar em diversos espaços.
“Posso estar, sim, de alguma forma, mostrando a outros colegas PCDs que é possível estarmos em eventos, trabalharmos neles e sermos úteis para com a sociedade e conosco, embora as dificuldades. Falo isso não com vitimismo, mas tentando, nem que seja um pouco, mostrar otimismo. Deus é bom”, disse.
Rotina no Parque do Povo
Pedro Vidal trabalha com a videomaker Maria Vitória, que auxilia nas captações e edições das entrevistas. A dupla não vai ao Parque do Povo todos os dias, mas segue um planejamento prévio, que, segundo Pedro, é atualizado no decorrer da programação da semana.
“No momento, há uma pessoa que colabora comigo. Não estou indo todos os dias, pois tenho algumas dificuldades. Focamos em cobrir os shows e acontecimentos e, no geral, entrevistas com artistas e as outras pessoas que fazem parte, como o público. Por exemplo, já entrevistamos comerciante, policial. A gente foi analisando a programação e montando um ‘cronograma’, mas não totalmente fechado… é muito por semana ou até mesmo possibilidade do dia”, explicou.
Durante a cobertura desta edição, o comunicador já entrevistou vários artistas que estiveram na programação, mas destaca alguns nomes que lhe chamaram a atenção pela receptividade, como Solange Almeida e Michele Andrade.
“Posso destacar Solange Almeida, a primeira artista que entrevistei, e Jonny Garotinho. Nas coletivas, eu destaco Tarcísio do Acordeon e Michele Andrade. Ambos demonstram impacto com minhas perguntas. A Michele, por exemplo, se emocionou ontem durante a entrevista”, disse.
Importância da acessibilidade
Pedro Vidal avalia que a estrutura do Parque do Povo tem oferecido condições de acessibilidade. Segundo ele, houve apenas um problema inicial para acessar a sala de imprensa, que foi resolvido pela organização do evento com a instalação de uma rampa e a criação de um acesso mais adequado.
“Foram super atenciosos e conseguiram para mim outro meio para acessar a sala e, posteriormente, já providenciaram rampa e melhor acesso”, relatou o profissional.
Os maiores desafios surgem nos momentos de grande concentração de público. Em uma das noites de shows, Pedro precisou atravessar uma área lotada para se deslocar entre a sala de imprensa e outros espaços do evento. Diante da dificuldade, bombeiros formaram um cordão de proteção para auxiliar a passagem, mas durante o trajeto, uma briga começou próximo ao grupo.
“Acionamos os bombeiros, que fizeram uma espécie de cordão de proteção ao meu redor para facilitar minha passagem, já que sou cadeirante e o fluxo de pessoas era muito intenso. Durante esse trajeto, literalmente ao meu lado, iniciou-se uma briga que poderia ter escalado para algo mais grave e até causado ferimentos em mim ou em alguém que estivesse me acompanhando”, relatou.
Para ele, situações como essa mostram a necessidade de discutir formas de garantir mais segurança e acessibilidade para pessoas com deficiência em grandes eventos.
“Reforço que é normal haver grande concentração de pessoas em locais de shows. No entanto, acredito que poderia existir alguma forma de facilitar o deslocamento e o acesso das pessoas com deficiência em meio a essas multidões”, comentou.
Apesar de defender melhorias na acessibilidade, Pedro diz que não vê a segregação como caminho. Segundo ele, a criação de espaços separados para pessoas com deficiência é uma solução momentânea.
“Vejo essas áreas como uma solução válida no presente, mas não como o cenário ideal”, afirma.
Na avaliação do comunicador, o objetivo deve ser a construção de ambientes em que pessoas com e sem deficiência possam compartilhar os mesmos espaços com autonomia, segurança e igualdade de condições.
Trajetória na comunicação
Pedro conta que o interesse pela comunicação surgiu ainda na infância. Ele participava de atividades na escola, produzia vídeos para a internet, teve uma web rádio e foi locutor da rádio da mostra pedagógica da instituição onde estudava.
“Gostava de chamar a atenção e ser ouvido”, resume.
Apesar de ter seguido profissionalmente na área de design, a vontade de trabalhar com rádio permaneceu. O incentivo veio após uma conversa com a locutora campinense Luciana Gomes, que compartilhou sua trajetória profissional. A partir daí, Pedro conheceu a Escola de Rádio, TV e Web, do comunicador Ruy Jobim, no Rio de Janeiro.
Ele se matriculou no curso, concluiu a formação, obteve o registro profissional e passou a buscar espaço no mercado da comunicação.
Antes da cobertura do São João deste ano, Pedro já havia participado da produção de conteúdos em eventos e também produziu episódios externos do próprio podcast durante o ImagineLand e na aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
