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‘Sequestro da gestão da vida’, diz especialista em segurança sobre avanço de facção em Cabedelo

Dique de Cabedelo. Foto: Divulgação.

A especialista em segurança pública Luziana Ramalho afirmou, em entrevista ao JPB1, que o avanço das facções criminosas em Cabedelo revela um problema estrutural de segurança pública e de ausência do Estado em territórios vulneráveis. A análise ocorre após a repercussão da reportagem exibida pelo Fantástico, que mostrou como integrantes do Comando Vermelho monitoram a cidade à distância, a partir do Complexo do Alemão.

Durante a entrevista, Luziana destacou que o conceito de território, dentro da lógica do crime organizado, vai além da disputa por pontos de tráfico.

“A ideia de território é a própria ideia de população. O crime atua sobre a população e sobre aquilo que antes era específico e restrito ao Estado”, afirmou.

Segundo a especialista, o avanço das facções representa um “sequestro da gestão da vida” em determinadas comunidades, fenômeno que, segundo ela, se intensificou nas últimas décadas.

A entrevista ocorreu após a divulgação de dados que apontam o aumento da violência em Cabedelo. Em 2018, o município registrou 13 mortes violentas intencionais. No ano passado, foram 29 casos, um aumento de 123%.

O relatório “Medo do Crime e Eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública neste domingo (10), mostra que 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem a presença de facções criminosas ou milícias nos bairros onde vivem.

“É muito significativo que quase 42% da juventude apta a votar reconheça, já tenha tido experiências e tema a sua segurança humana”, disse a especialista.

Luziana Ramalho analisou situação a partir do caso da cidade de Cabedelo. Reprodução

‘Ilusão da seguraça pública’

Para a pesquisadora, a segurança pública não pode ser tratada apenas como responsabilidade das forças policiais. Ela criticou o modelo predominantemente reativo adotado no Brasil.

“Nós acreditamos numa ilusão de que a segurança pública, enquanto política de Estado, pode sozinha resolver o problema. Aqui no Brasil e na Paraíba seguimos uma sistemática de atuação reativa”, afirmou.

Segundo Luziana, operações policiais e prisões são necessárias, mas insuficientes diante da estrutura consolidada do crime organizado.

“Mesmo que prendêssemos hoje esse traficante que comanda o estado da Paraíba, o crime já está posto, inclusive com influências em gabinetes e poderes públicos”, declarou.

A especialista também demonstrou preocupação com a relação entre facções criminosas e política. Ela afirmou que existem denúncias formais, desde as eleições de 2022, sobre interferência do crime organizado em territórios e candidaturas.

“O crime está no mundo da política, no mundo empresarial e também no sistema de justiça criminal”, afirmou.

Ao comentar a expansão das facções pelo país, Luziana disse que organizações criminosas vêm ampliando sua atuação para cidades menores e estados do Nordeste, seguindo estratégias semelhantes às de grandes centros urbanos.

O crime, de fato, é organizado a tal ponto de seguir as tendências de mercado. E a tendência do mercado é a expansão” disse.

Apesar de defender ações imediatas de repressão policial, Luziana afirmou que o enfrentamento ao crime depende de políticas públicas permanentes e presença contínua do Estado nas comunidades.

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