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A cantora Joan Baez fez 85 anos na sexta-feira, nove de janeiro de 2025. Ela está aposentada das turnês e dos estúdios, mas segue em seu ativismo. Ainda mais agora, nos Estados Unidos com Donald Trump como presidente.
Musa da protest song na América da década de 1960, ela já era famosa quando Bob Dylan começou a se projetar nacionalmente, em 1963. Foi sua intérprete e também foi sua namorada. Soprano, impostava a voz, se aproximando das intérpretes líricas.
Nesse sentido, era, portanto, uma cantora “antiga” numa época de grandes novidades. Mas o repertório estava perfeitamente afinado com o seu tempo e a sua geração.
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Seus melhores discos são os muitos que lançou pelo selo Vanguard. No começo, somente voz e violão. Mais tarde, passou a ser acompanhada por outros músicos e abandonou a sonoridade exclusivamente acústica.
Gravou lindamente a quinta Bachiana, de Villa-Lobos. E também as nossas Muié Rendeira e Manhã de Carnaval.
Dedicou um disco inteiro ao repertório das Américas Central e do Sul, cantando de Guantanamera a Gracias a la Vida.
Baez, junto de Dylan, marchou sobre Washington com Luther King, em 1963, e estava ao lado do reverendo quando ele fez o discurso do “eu tenho um sonho”.
Cantou em Woodstock, em 1969, grávida e com o marido preso como desertor. Foi um momento sublime da sua longa trajetória – seis décadas em que percorreu o mundo dividindo com suas plateias os sonhos dos quais nunca abriu mão.
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Em Woodstock, sob luz púrpura, rosa e azul e cantando à capela, ela fez o spiritual Swing Low, Sweet Chariot. Chovia fino, e saía vapor da sua boca. O canto de Joan Baez soou como uma oração. Em seguida, a multidão adormeceu, comovida e em paz.
“Cantei essa música em Woodstock, cantei em Washington para Martin Luther King, cantei ao redor do mundo. Agora, canto para vocês”.
Foi o que Joan Baez disse antes de fazer Swing Low, Sweet Chariot para a plateia do teatro do shopping Riomar, no Recife. Era uma sexta-feira, 28 de março de 2014.
A fala trouxe a cantora e sua história para junto de nós numa noite mágica e inesquecível. Não mais à capela, como em Woodstock, mas com voz e violão, o spiritual pode resumir o que é ver Joan Baez de perto. Grandeza e absoluta simplicidade. A sua dimensão projetada ali num concerto de pouco mais de uma hora.
A voz de soprano, já com registros menos agudos, mas igualmente bela. O violão com suas cordas de aço e uma sonoridade muito familiar. A mesma que ouvimos através das décadas do nosso tempo. E continuamos a ouvir. Depois de todos esses anos.
Vi Joan Baez a três dias da data em que o golpe de 64 completaria meio século. A coincidência teve uma força simbólica. Joan Baez é parte dos sonhos e das ideias generosas de uma geração. A impossibilidade de realizá-los tornou ainda mais bonito o seu recital. Uma evocação. Nostálgica, sim. Melancólica, por que não?
Joan Baez, sua voz, seu violão, dois músicos, 21 canções. Dos spirituals dos pretos e pretas da América ao Geraldo Vandré de Caminhando ou à nossa Cálice, que os censores impediram Chico Buarque e Gilberto Gil de cantar em 1973.
De Bob Dylan a John Lennon. Do folk de lá ao folk de cá, em Muié Rendeira. Mais a latinidade de Gracias a la Vida, que remete a Violeta Parra, Mercedes Sosa e Elis Regina.
Fiz com Joan Baez o que nunca havia feito com ninguém mais em tantos anos de amor à música e de muitos shows ao vivo. Na reta final do programa, corri para a beira do palco e, de joelhos, me pus a fotografá-la com o celular.
Olhei nos olhos dela, contemplei bem de perto as expressões do seu rosto e os movimentos da sua boca em Imagine e Blowin’ in the Wind. Também no spiritual Amazing Grace, feito à capela com as vozes de uma plateia emocionada.
Fui recompensado. Nos poucos minutos que separam o término do programa do bis, depois de abraçar um rapaz ao meu lado e de ouvir um “quero também” no meu Inglês precário, ela estendeu as duas mãos e apertou as minhas com força.
Quando as soltou, olhou para mim, sorrimos, e ela repetiu o gesto. Entre um aperto e outro, a foto sem qualidade que tirei com o celular tenta eternizar o momento.
Mãos quentes e firmes. As dela. As minhas estavam geladas. “I don’t believe it!” – foi tudo o que consegui dizer, antes de pedir uma canção de Dylan que ela, prontamente, cantou.
