Arquivo de tag Radionovelas

porpjbarreto

Reportagem Especial II: 100 anos do rádio – os áureos tempos dos programas de auditório, radionovelas e grandes espetáculos

Na Reportagem Especial que mostra os 100 anos do rádio no Brasil, chegou a vez de visitar os áureos tempos dos programas de auditório, radionovelas e grandes espetáculos da era do rádio, que imperou entre as décadas de 40 e 50.

A evolução dos receptores de ondas radiofônicas ajuda a entender a gradual popularização do rádio, a partir da década de 1920. Primeiro veio a galena, depois, apareceram a válvula e a radiofrequência sintonizada. Alguns receptores eram imensos e ocupavam o espaço de um móvel dentro de casa. Com o tempo, essa geringonça foi se tornando mais portátil. Mas, para os ouvintes, o que importava mesmo era o prazer de se reunir em torno desses aparelhos ou diante de alto-falantes para curtir os espetáculos sonoros de seus cantores, músicos, escritores, atores e humoristas preferidos da Era do Rádio.

[MÚSICA: Cantoras do rádio]

A carioca Rádio Mayrink Veiga foi uma das primeiras a investir em entretenimento. No entanto, o que se costuma chamar de a Era do Rádio está muito associada à história da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A emissora de prefixo PRE-8 foi criada por um grupo privado, em 1936, mas acabou encampada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, quatro anos depois. Com alcance nacional, a emissora conquistou audiência cativa ao difundir o trabalho dos artistas que viviam na então capital federal.

[Marlene e Emilinha Borba em programas de auditório na Rádio Nacional]

As atrações eram fartas: programas de auditório, shows de calouros, esquetes de piadas e muitas radionovelas. Havia grande concorrência entre as emissoras para manter elencos fixos com os mais renomados artistas. Osmar Frazão, ex-diretor da Rádio Nacional, relembra alguns dos nomes famosos que criaram as principais radionovelas.

Osmar Frazão: “O radioteatro retratou, em capítulos, esse nosso Brasil romântico escrito pelos mais abençoados escritores radiofônicos, como Amaral Gurgel, Mário Brasini, Edgard G. Alves, o meu saudoso Guiaroni, Janete Clair, Dias Gomes, Mário Lago e tantos outros que prendiam a emoção dos ouvintes nesse tempo do radioteatro, nesse tempo dos auditórios.”

[Trecho de “O Direito de Nascer”]

Esse aí é um trechinho de “O direito de nascer”, do escritor cubano Félix Caignet, exibida na Rádio Nacional em 1951. O ator Paulo Gracindo vivia o protagonista Alberto Limonta. Essa radionovela de 260 capítulos foi um verdadeiro fenômeno de audiência para a época. O Brasil inteiro parava para escutá-la pelas ondas da Nacional. Ao longo da história da emissora, foram dezenas de títulos:

“Senhoras e senhoritas, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro apresenta ´Em busca da felicidade´, emocionante novela de Leandro Blanco.”

“Radioteatro Colgate-Palmolive em mais um capítulo de ´Serra Brava’.”

“Uma escada para o céu’ é a dramática e comovente história de amor que Janete Clair escreveu e que a Rádio Nacional apresenta hoje, às 8 horas da noite, em seu primeiro e emocionante capítulo.”

Parte desse modelo de sucesso da Era do Rádio deve-se ao tino comercial de Ademar Casé, um pernambucano que chegou ao Rio para profissionalizar o rádio brasileiro:

“A Rádio Phillips do Brasil, PRA-X, passa a irradiar o Programa Casé.”

Casé, inicialmente na Rádio Phillips e depois na Nacional, foi sócio de Francisco Alves, lançou Noel Rosa e impulsionou as carreiras de Carmem Miranda e Orlando Silva, o “cantor das multidões”. O cineasta Estevão Ciavatta conta essa história no filme “O programa Casé” e faz um resumo aqui nessa entrevista à Rádio Câmara.

Estevão Ciavatta: “O Casé vem inventando um monte de programas ou de conceitos artísticos que a gente utiliza até hoje. Desde os modelos de negócio: você tem uma concessão por determinado espaço de tempo, ao qual você paga dinheiro, contrata artistas e, com essa movimentação de atrações na sua rádio, você vende espaço comercial para anunciar e aí pagar tudo isso e ainda ter lucro na história. Ele é a primeira pessoa a pagar cachê para músicos tocarem na rádio. Em seguida, ele inaugura a parte criativa dentro do rádio, que é o primeiro jingle.”

Esse primeiro jingle é de autoria do compositor e caricaturista Nássara. Outro pioneiro do rádio, o comunicador Almirante, relembra como o pão da Padaria Bragança inaugura a propaganda cantada no rádio.

Almirante: “Nássara teve a iniciativa. Em vez de ler os versinhos, ele cantou aquele versinho, cantando com aspecto de fado. Pode-se admitir que é o primeiro jingle que apareceu, mas não era gravado: ´ai, o padeiro dessa rua / tenho-o sempre na lembrança / não me traga outro pão / que não seja o Pão Bragança’.”

São inegáveis a audiência e a influência da Rádio Nacional do Rio de Janeiro no país inteiro, durante essa Era do Rádio. Mas isso não significava paralisia das emissoras regionais. Vamos pegar dois exemplos? Salomão Esper, que já passou pela Rádio Cruzeiro do Sul e está há mais de 50 anos na Rádio Bandeirantes, revela um pouco das atrações das emissoras paulistas neste mesmo período de ouro da Nacional.

Salomão Esper: “No interior inteiro, inclusive o de São Paulo, os moços que queriam um dia chegar diante de um microfone faziam sempre citação a essas emissoras do Rio. Mas a Bandeirantes produzia programas de nomeada. Eu me lembro que a Rádio Record tinha o Osvaldo Molles, maestros como Gabriel Migliori. A Rádio Tupi apresentava grandes cantores. Quando eu fui fazer o meu teste, encontrei cantando lá a Hebe Camargo.”

Os pernambucanos davam uma paradinha para ouvir a programação da Nacional, mas também se ligavam nas atrações locais. Quem conta é Renato Phaelante, historiador da pioneira Rádio Clube de Pernambuco.

Renato Phaelante: “Havia horários em que nós, ouvintes, parávamos para ouvir a Rádio Nacional. E havia uma intenção política nesse aspecto: o Estado Novo e o próprio governo de Getúlio Vargas tinham esse objetivo de difundir o rádio popularmente e a Rádio Nacional foi uma escola nesse sentido. Mas a Rádio Clube de Pernambuco tinha uma repercussão muito forte na sociedade local.”

[MÚSICA: Madeira que cupim não rói (frevo de Capiba)]

E tinha mesmo. O radialista e compositor Antônio Maria e o comunicador Abelardo “Chacrinha” Barbosa surgiram lá. Em 1934, a Clube passou a ser dirigida pelo maestro Nelson Ferreira, que foi fundamental para a difusão dos frevos de Capiba.

 

Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Aprigio Nogueira
Agência Rádio Câmara