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Delator da Calvário cita presidente e vice da Cruz Vermelha em negócio com loteria da Paraíba

Na denúncia da Operação Calvário, o Ministério Público reproduz trechos da delação de Daniel Gomes que sugerem que a cúpula nacional da Cruz Vermelha Brasileira tinha ciência do esquema de propinas de Ricardo e seu irmão Coriolano Coutinho com a Loteria da Paraíba.

Além disso, segundo o delator, parte da “excelente receita” obtida pela filial paraibana da CVB, por um contrato de ‘raspadinha’ com a Lotep, teria sido repassada a “Júlio Cals Alencar e Victor Hugo Costa Cabral”, presidente e vice-presidente da Cruz Vermelha nacional, respectivamente.

Até agora, a cúpula da CVB tem negado participação no esquema criminoso e atribuído o envolvimento de Daniel Gomes, ex-conselheiro, a uma atuação independente e não institucional.

Nas gravações entregues pelo delator, porém, Daniel Gomes diz ter conversado pelo menos com Victor Cabral sobre o tema. Os diálogos entregues ao MP são de Daniel com Coriolano, que controlava a Lotep por meio de laranjas.

Num trecho da gravação, o irmão do ex-governador pressiona a CVB a firmar um novo contrato com a Lotep que contemplasse o pagamento de propina. E ironiza: “Uma coisa é você fazer uma coisa pontual, outra coisa é você fazer uma ação toda semana. Isso perde a característica ‘ah, é uma ação beneficente’. Instituição beneficente vai ter sorteio toda semana, mestre? Pra cima de mim?”

Em outro trecho da gravação entregue ao MP, Daniel Gomes diz ter conversado com o VP nacional da CVB e garante que a cúpula da entidade estava disposta a chegar a uma solução – o que acabou acontecendo.

“Conversei contigo, liguei para o VICTOR ( … ) ‘porra Victor, deu um estresse da porra aqui, a gente tem uma relação com o Estado, grande ( … ) e falei ‘vem pra cá que vai ter uma reunião lá com uma pessoa que eu gosto muito’, enfim, eu tenho um relacionamento realmente muito próximo com o COR!, a gente já tá aqui no governo há 6 anos, a gente não quer ter problema com o governo( … ) A Cruz Vermelha tá à disposição para buscar uma solução, o que for possível de resolver.”

A solução, como confirmou o Ministério Público, foi romper o contrato anterior e firmar um novo, de uma raspadinha (que vigora até hoje), com pagamento de propina ao esquema do ex-governador.

Apesar da citação, o MP não incluiu Victor ou Júlio na denúncia.

Questionado o presidente da Cruz Vermelha não esclareceu a suposta divisão de lucros do contrato da loteria. Disse apenas que “todos os denunciados foram sumariamente afastados e não possuem qualquer ingerência na administração da Cruz Vermelha Brasileira”.

“Nesta nova ação penal, após rigorosa apuração promovida pelos órgãos de persecução, não consta da relação de acusados qualquer pessoa que ainda mantenha vínculo com a instituição, não tendo sido identificados indícios de prática de infrações penais por parte de nenhum dos atuais integrantes do quadro diretivo tanto das filiais estaduais quanto do órgão central da Cruz Vermelha Brasileira.”

Em nota, disse também que a “Cruz Vermelha Brasileira reitera seu compromisso com a apuração de todos os ilícitos praticados contra sua organização, visto que é também vítima dos atos delitivos de seus ex-colaboradores”.

“A instituição mantém sua política de afastamento sumário de todo e qualquer envolvido em suspeitas de ilícitos penais. Dessa forma, havendo elementos indicativos de ações criminosas, procederá como vem procedendo desde a deflagração da Operação Calvário, em que atua como Assistente de Acusação ao Ministério Público.”

 

Com MPPB e O Antagonista